CINE REX: SEXO E KUNG-FU *

CINE REX: SEXO E KUNG-FU *

 

    Quem tem pelo menos 50 anos, como eu, vai lembrar, com um certo grau de nostalgia, do famigerado cine Rex. Situado na praça Pedro II, no coração do centro de Teresina, notabilizou-se por passar apenas dois tipos de filme: sexo explícito ou lutas marciais. Não dava outra! Se não tivesse alguma loura oxigenada de seios enormes no cartaz, então teria a cara do Bruce Lee, inevitavelmente. E nós, alunos do Diocesano, todos menores de idade, iniciamos nossa vida pornográfica ali, já que não havia qualquer fiscalização na porta. Combinávamos sempre assistir aos filmes em grupo, já que o lugar tinha fama de abrigar depravados que, contava a lenda, atacavam adolescentes que se arriscavam por aquelas plagas. Íamos pelo filme também, claro, mas íamos muito mais pela bagunça que envolvia o ambiente. Era impagável ver a multidão açodando qualquer incauto que resolvesse ir ao banheiro na hora do filme. Imediatamente começava a gritaria: “Já vai, né”? “Espera ao menos chegar em casa…”! “Punheteiro…”! Eu, particularmente, preferia mijar nas calças a ir ao banheiro no meio do filme.

    Os nomes dos filmes eram outra diversão à parte. Os títulos eram crus, sem qualquer tato, como Rebuceteio, Vaginas Douradas ou Enfiando a Vara. Dizem que o primeiro beijo ninguém esquece. Pois o primeiro filme pornô tampouco. O meu, pelo menos, nunca esqueci: Sexo Explícito Sobre Rodas! A sinopse do filme era mais ou menos assim: 4 garotas resolvem dar a volta ao mundo em bicicletas. Infelizmente, penso que elas não conseguiram sair nem do bairro delas, já que a cada 5 minutos de filme elas paravam para transar com alguém. Saíram de casa, andaram dois quarteirões e tinha um posto de gasolina com 4 frentistas. Sexo…Depois montaram na bicicleta e andaram mais alguns metros, até ver um prédio em construção com vários pedreiros. Sexo…E por aí ia. Nas quase duas horas de filme elas não percorreram nem oito quarteirões! Imagino que hoje, passados 25 anos, elas tenham conseguido sair dos limites da cidade…Mas isso é só uma suposição. Outra coisa interessante era a total falta de diálogos. Elas vinham na bicicleta, avistavam um grupo de homens, desmontavam e mandavam ver, sem qualquer apresentação!

    Íamos uma vez por mês, mais ou menos. Mas tinha um colega nosso, que atendia pela alcunha de pijama (usava sempre umas roupas folgadas, muito na moda naquela época), que era viciado no negócio. Quase todo santo dia saía do colégio para ir ao Rex. Um dia a turma flagrou-o em uma fila para assistir ao filme Jumento Gozador II. Nessa época fazíamos um cursinho à noite, perto do Fripisa, para nos preparar para o vestibular que faríamos naquele ano. Quando o pijama chegou à aula, atrasado, começamos todos a relinchar. Mas o Pijama, ao saber o motivo da algazarra, não se fez de rogado, e explicou a todos (inclusive às meninas), sem qualquer constrangimento, o motivo de sua ida ao dito filme: “Ora, porra, se eu já tinha ido ao Jumento Gozador não poderia deixar de assistir ao Jumento Gozador II. É continuação, ora…”.

    Em suma, o Rex fazia parte de nossa paisagem, com aquela decadência majestosa que sua arquitetura impingia a todos. Aquele pé direito enorme, aquelas poltronas outrora elegantes, que ainda traziam vestígios de dias melhores, tempos áureos. O uniforme do bilheteiro, ostentando insígnias que poderiam fazer algum sentido no passado, não ali naquela época. Tudo isto em contraste com a decadência, que se materializava na plateia e nos filmes toscos projetados. Hoje, ao passar pela porta, ainda consigo imaginar uma loira com seios enormes emoldurada em um cartaz, e o Pijama, com aquelas calças folgadas, em uma fila que não mais existe, salvo na imaginação dos que viveram aquela época.

* Esta crônica já havia saído, anos atrás, em um jornal do nosso sindicato. Mas alguns amigos pediram para que eu postasse novamente, em razão de muitos não terem tido oportunidade de lê-la à época. Peço desculpas aos que já leram anteriormente.

Sérgio Idelano

 

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